Gabriel O Pensador prepara para o dia 3 de dezembro de 2025, na Fundição Progresso, no centro do Rio de Janeiro, a gravação do projeto Acústico 33, que marca exatamente 33 anos desde o lançamento da música Tô Feliz (Matei o Presidente), faixa que apresentou o artista ao Brasil em 1992. O espetáculo será integralmente registrado em áudio multicanal e vídeo em alta definição para posterior lançamento comercial em plataformas de streaming, CD, vinil e DVD/Blu-ray, ainda sem data oficial anunciada pela produção.
O evento reúne um elenco de convidados que atravessa gerações e estilos da música brasileira. Até o momento estão confirmados: Mano Brown (líder dos Racionais MC’s), MV Bill, Lulu Santos, Armandinho, Negra Li, Cidade Negra (na formação atual com Toni Garrido e Bino Farias), Rael, Ventania e mais três nomes que a produção mantém em sigilo, mas que, segundo informações extraoficiais que circulam entre fãs e imprensa, podem incluir artistas como Marcelo D2, Jorge Ben Jor ou Samuel Rosa. A direção musical fica a cargo do próprio Gabriel em parceria com o produtor Liminha e o arranjador Apollo 9, responsáveis por traduzir para formato predominantemente acústico o repertório originalmente calcado em batidas eletrônicas e samples.
Gabriel Contino, nascido em 4 de março de 1974 na zona sul carioca, é filho do cartunista Jaguar e da psicóloga Belisa Ribeiro. Formado em Comunicação Social, começou a compor rap ainda adolescente, influenciado por grupos norte-americanos como Public Enemy, N.W.A e Run-D.M.C. A demo Tô Feliz (Matei o Presidente), gravada em 1992, foi enviada a rádios como brincadeira e acabou tocando intensamente, levando à assinatura de contrato com a Sony Music. O álbum de estreia, Gabriel O Pensador (1993), vendeu mais de 1,2 milhão de cópias só no Brasil, impulsionado pelos singles Lôraburra, Retrato de um Playboy (Juventude Transviada) e 2345meia78. Faixas como Racismo é Burrice e Lavagem Cerebral estabeleceram desde cedo a linha de crítica social que acompanharia toda a sua obra.
Ao longo de nove álbuns de estúdio — o mais recente é Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo), de 2001, seguido por projetos especiais e coletâneas —, Gabriel manteve média de vendagem superior a 300 mil cópias por disco, números expressivos para o gênero na época. Entre os maiores sucessos estão Cachimbo da Paz (1995), com sample de Jorge Ben Jor; Até Quando? (1995); Tempos Modernos (1997); Festa da Música (1999) e Náufrago (2001). Além da música, o artista publicou quatro livros, apresentou programas na MTV Brasil e na rádio MPB FM e atuou como empresário, sócio da produtora Gávea Investimentos.
Mano Brown, nome artístico de Pedro Paulo Soares Pereira, nasceu em 22 de abril de 1970 no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Criado apenas pela mãe após a separação dos pais, encontrou no rap uma forma de canalizar a revolta contra a violência policial e o racismo cotidiano. Fundou os Racionais MC’s em 1988 ao lado de Ice Blue, Edi Rock e KL Jay. O primeiro disco, Holocausto Urbano (1990), já trazia faixas como Pânico na Zona Sul e Voz Ativa. O ápice veio com Sobrevivendo no Inferno (1997), que vendeu mais de 1,5 milhão de cópias de forma totalmente independente e entrou para listas de melhores álbuns brasileiros de todos os tempos. Canções como Capítulo 4, Versículo 3, Diário de um Detento e Fórmula Mágica da Paz consolidaram o grupo como porta-voz da periferia negra brasileira. Em carreira solo, Brown lançou Boogie Naipe (2016) e mantém participações esporádicas em álbuns de novos artistas.
MV Bill, cujo nome real é Alex Pereira Barbosa, nasceu em 3 de janeiro de 1974 na Cidade de Deus, comunidade que ganhou projeção mundial com o filme de 2002. Iniciou a carreira escrevendo sambas-enredo para a escola de samba da comunidade, mas migrou para o rap em 1993. O primeiro álbum, Tiro em Alto (1996), já apresentava letras realistas sobre a rotina de tiroteios e tráfico. Traficando Informação (2000) tornou-se referência obrigatória, com músicas como Soldado do Morro e O Bagulho é Doido. Paralelamente à música, Bill fundou a ONG CUFA (Central Única das Favelas) ao lado de Nega Gizza e Celso Athayde e mantém até hoje projetos de biblioteca comunitária, cursos profissionalizantes e eventos culturais em dezenas de comunidades pelo país.
A Fundição Progresso, escolhida para a gravação, é um dos espaços culturais mais tradicionais do Rio de Janeiro. Inaugurada em 1987 em um antigo galpão de fundição de ferro na Lapa, tem capacidade para cerca de 2.500 pessoas em configuração de pista e já recebeu shows históricos de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Planet Hemp, O Rappa, Lenine, Paralamas do Sucesso e inúmeros eventos de rap e hip-hop. O local possui estrutura completa de som e luz, além de acústica reconhecidamente favorável a registros ao vivo.
O repertório previsto para o Acústico 33 deve ultrapassar 25 músicas e incluir praticamente todos os maiores sucessos de Gabriel O Pensador em versões desplugadas. Entre as faixas já confirmadas pela produção estão: Tô Feliz (Matei o Presidente), Lôraburra, 2345meia78, Retrato de um Playboy, Cachimbo da Paz, Até Quando?, Lavagem Cerebral, Tempos Modernos, Festa da Música, Náufrago, Seja Você Mesmo (Mas Não Seja Sempre o Mesmo), além de canções menos executas como Dança do Herói, Pátria Que Me Pariu e Mentiras do Brasil. As participações especiais terão momentos próprios: Mano Brown deve dividir microfone em Racismo é Burrice e em uma versão acústica de Diário de um Detento; MV Bill participará de Soldado do Morro e de uma nova leitura de Traficando Informação; Lulu Santos cantará ao lado de Gabriel em Tempos Modernos e Como uma Onda (em versão rap-reggae); Negra Li reforçará faixas como Festa da Música e Antirracismo.
Os ensaios começaram em outubro de 2025 em um estúdio na Barra da Tijuca e contam com banda base formada por Apollo 9 (violão e direção musical), Lan Lan (percussão), Dado Villa-Lobos (violões adicionais), Marcelo Lobato (teclados e percussão eletrônica leve) e uma pequena seção de cordas com quatro violinos e dois cellos. A proposta é manter a essência das letras, mas reduzir a agressividade das batidas originais, substituindo-as por grooves acústicos que lembrem os projetos Acústico MTV da década de 2000.
Os ingressos, colocados à venda em 20 de outubro de 2025, esgotaram em menos de quatro horas. Os valores variaram entre R$ 120 (meia-entrada pista) e R$ 300 (pista premium inteira). Uma segunda data extra foi cogitada, mas descartada pela produção devido à complexidade técnica da gravação. Quem não conseguiu ingresso poderá acompanhar trechos em tempo real pelas redes sociais oficiais do artista e, posteriormente, pelo documentário dos bastidores que será incluído como conteúdo bônus no lançamento físico.
A gravação do Acústico 33 insere-se em uma onda recente de projetos que revisitam a trajetória de artistas pioneiros do rap e do pop-rock brasileiro em formato acústico ou sinfônico. Nos últimos anos, nomes como Planet Hemp (Acústico com Orquestra Petrobras Sinfônica, 2023), Charlie Brown Jr. (com participações póstumas de Chorão em 2024), Marcelo D2 (Acústico 2024) e O Rappa (reedição do Acústico MTV em vinil 2025) seguiram caminho semelhante. Gabriel O Pensador, que nunca havia lançado um registro oficial ao vivo completo, preenche agora essa lacuna em sua discografia.
O projeto tem produção executiva da Gávea Investimentos (empresa do próprio artista) em parceria com a Universal Music, que detém o catálogo completo de Gabriel desde 2018, quando adquiriu os direitos da Sony Music Brasil. A mixagem ficará a cargo de Scotty K, engenheiro norte-americano que já trabalhou com Kendrick Lamar e Dr. Dre, enquanto a masterização será realizada no Abbey Road Studios, em Londres.
Além do lançamento audiovisual, está prevista uma série documental de quatro episódios para o Globoplay, com direção de Mini Kerti (a mesma de Emicida: AmarElo – Ao Vivo), mostrando os bastidores dos ensaios, depoimentos dos convidados e reflexões de Gabriel sobre os 33 anos de carreira. A trilha sonora do documentário incluirá versões demo inéditas gravadas nos anos 1990 e 2000.
Com o Acústico 33, Gabriel O Pensador fecha um ciclo que começou com uma brincadeira adolescente em 1992 e se consolidou como uma das carreiras mais longevas e consistentes da música urbana brasileira. A presença de Mano Brown e MV Bill no mesmo palco reforça a ideia de continuidade geracional e de respeito mútuo entre artistas que, apesar de origens e trajetórias distintas, compartilham o compromisso com a crítica social e a transformação pela arte. A Fundição Progresso, na noite de 3 de dezembro, será palco de um registro que já nasce histórico para o rap nacional.